João Balzola nasceu em Villa Miroglio (Diocese de Casal Monferrato-Itália) a 2 de fevereiro de 1861, filho de Francesco e de Maria Balzola. Desde menino queria ser Padre, mas a vocação ficou em incubação até aos 24 anos, depois da vida militar. Tendo ouvido falar de D.Bosco como de um santo moderno, isto é, vivente e contemporâneo, se decidiu para a Congregação Salesiana. Entrou no Colégio S. João Evangelista em Turim em novembro de 1884 quando os Filhos de Maria eram transportados de Mathi para àquele colégio novo. Era Diretor o Servo de Deus Pe. Felipe Rinaldi que conservou do aluno grata memória pela piedade, simplicidade, amor ao trabalho e ardor pela salvação das almas.“
Após um maravilhoso trabalho no Mato Grosso, em meados de 1914 uma grande notícia veiu transferir o Pe. Balzola para outro campo. A S. Sé confiava aos salesianos a Prelazia do Rio Negro no Amazonas, e o homem indicado para fazer as primeiras explorações foi precisamente Pe. Balzola.
Após 20 anos de trabalhos apostólicos em Mato Grosso, o grande missionário deixava este campo para obedecer à voz do alto e iniciar outra importante missão.
Partiu de Cuiabá nos primeiros dias de 1915, e eis a narração singela como arrumou o enxoval: “A época era crítica para todos e D. Malan, sem embargo de sua comprovada boa vontade, a custo pôde amealhar uma soma que apenas chegava para uma pequena parte da viagem, de Corumbá ao Rio de Janeiro. Estava desprovido de roupas, mas os irmãos numa santa porfia de caridade, esmeraram em munir-me do necessário. Dom Malan deu-me uma batina; Dom Aquino dois pares de botinas, o secretário, da casa um sobretudo, e o Diretor alguma roupa branca... A alma generosa e simples de Pe. Balzola na longa viagem do Rio até Belém, Manaus, e o extremo Cucuí, lá onde o Rio Negro sai do Brasil e corre entre Colômbia e Venezuela, encontrou em tôda parte pessoas hospitaleiras e generosas que mereceram sua efusiva gratidão. Assim nessa viagem de inspecção, pôde formar uma idéia das dificuldades do clima e do ambiente e relatar aos Superiores sobre o campo que nos era confiado. Por quatro anos como fundador e diretor da nossa residência de S. Gabriel, sede da Prelazia, trabalhou como fiel e animoso colaborador de Mons. Lourênço Giordano, desenvolvendo a lavoura da roça e da horta vencendo toda sorte de dificuldades e sobretudo cristianizando os caboclos do Rio Negro. Em 1924, penetrando na zona dos Tucanos, surgiu por mérito e execução dele, a missão de Taracuá “supra firmam petram”; quem chega de baixo, avista-se de longe esse panorama fantástico de presépio que abrange na encosta da colina o complexo majestoso dos dois colégios. Mas após 30 e tantos anos de fadigas contínuas nas missões de Mato Grosso e do Rio Negro, as fôrças extremadas induziram os Superiores a conceder-lhe uns meses de descanso. Só que do descanso ele pensava como D. Bosco: “Descansaremos no Paraíso”; por isso quando chegou à Itália, correu de cidade em cidade, chamado em toda parte para conferências que deixavam nas almas a mais profunda simpatia e amor às missões e aos missionários; 300 e tantas conferências foram o seu descanso!
Depois, mais gordo e forte voltou ao Rio Negro. Era daqueles anos a nova missão de Barcelos que tudo devia a êle; quando no porto êle viu os alunos e indios que tinham corrido a seu encontro, e os vivas que ecoavam pelos ares, não pôde pronunciar sequer uma palavra e murmurava somente comovidíssimo até às lágrimas:
“Oh! a Divina Providência! a Divina Providência!” Na festa do Coração de Jesus, lembrou que três anos antes, lá era deserto; agora circundava-o o pequeno clero, e meninos, índios, e povo apinhavam o ambiente. O ano anterior tinha sido terrivel pelo vasto incêndio que durou semanas e meses cortando as comunicações com Manáus; a grande seca tinha provocado a falta de tudo, e o coração de Pe. Balzola sofreu indizivelmente; o físico começou a definhar, tornar-se magro até feito esqueleto. A última excursão foi a Carvoeiro para as festas de S. Alberto, festas que apesar de todos os esforços dos missionários, conservavam um caráter de diversões profanas, mais que religiosas. Alma apostólica e sem acomodações, a vista de certas desordens, acelerou-lhe as febres; Pe. Balzola voltou a Barcelos febricitante e consumido. A resistência prolongou-se uns dias em que o grande missionário ainda ensinava da cama de suas dôres a plácida resignação à vontade de Deus. Tudo tinha dado para os Índios e para as almas; com todos os Sacramentos a grande alma voou a Deus a 17 de agôsto de 1927.
Foi sepultado na Igreja de Barcelos, perto do presbitério, à esquerda de quem olha o altar; os alunos, entrando ou saindo da Igreja, têm na vista a lápide sepulcral que lembra a imolação do missionário cujo nome é ligado para sempre, à civilização dos Bororos e dos Tucanos.
Teve Pe. Balzota três dotes característicos: uma grande fé, uma paciência heróica, e uma caridade sem fim. Responsável de duas emprêsas difíceis e cheias de incógnitas (o início da Missão dos Bororos e a do Rio Negro), só com uma fé gigante não desanimou, encorajando todos, invocando continuamente o Coração de Jesus e N. Sra. Auxiliadora dos quais era devotíssimo. Com os Bororos, crianças eternas, por tôda a vida, teve que dominar-se em mil ocasiões para poder com a pa¬ciência dominar os instintos selvagens dêles. E foi sobretudo o amor aberto, sincero aos Índios, e os sacrifícios que por êles sabia enfrentar e fazer, que alcan¬çaram desarmar a desconfiança dêles para atraí-los e convertê-los.
Apesar de homem rude, “monferrino” de têmpera antiga, talhado para todos os trabalhos mais duros, tinha um coração sensível, e era de se admirar como se apresentava na mesa sempre limpo e asseiado, pontual e edificante nas práticas de piedade, na observância exemplar das Regras, e no amor incondicionado aos Superiores e à Congregação.
Deus envie às missões para cada geração homens como êstes que definem uma época e representam os marcos históricos da civilização cristã.
Fonte: Missaosalesiana