Audiência de instrução do caso Bruno e Dom é adiada pela Justiça Federal - Blog do Rio Negro - Amazonas

Juiz Fabiano Verli alegou falta de comunicação entre as partes e ausência de sala para receber os réus durante os depoimentos, que seriam dados remotamente pelos réus. (Foto:© Chris J Ratcliffe / Greenpeace)


Leanderson Lima e Cícero Pedrosa Neto, da Amazônia Real

Manaus (AM) e Belém (PA) – A audiência de instrução dos réus do caso Bruno Pereira e  Dom Philips, prevista para ocorrer nos próximos dias 23, 24, e 25, foi adiada pelo juiz da Vara de Federal de Tabatinga, Fabiano Verli. Amarildo da Costa Oliveira, o “Pelado”, Oseney da Costa de Oliveira, o “Dos Santos”, e Jefferson da Silva Lima, o “Pelado da Dinha”, estão presos em penitenciárias de Campo Grande (MS), segundo informou a assessoria da Secretaria de Administração Penitenciária do Governo do Amazonas (SEAP-AM). Eles são acusados de homicídio qualificado e associação criminosa.

Na decisão assinada na tarde desta sexta-feira (20), o juiz Fabiano Verli diz que houve “lamentável falta de comunicação entre nós, da Justiça Pública”. Outro motivo, mais surpreendente, foi a falta de salas disponíveis para receber os réus para os depoimentos remotos.

“Quanto às audiências da semana que vem, bem, elas estão canceladas, não pelos argumentos da defesa, que tem lá sua estratégia, mas pela lamentável falta de comunicação entre nós, da Justiça Pública”, escreveu  o juiz Fabiano Verli, em sua despacho. “Fomos pegos de surpresa pela impossibilidade de se disponibilizarem salas para que os presos acompanhassem as audiências a tempo e modo”, alegou o magistrado.

Fabiano Verli ainda pediu desculpa, “em nome do Estado”, e disse que a  comunicação não fluiu bem. “Perdemos, com isso, centenas de caras horas de trabalho pagas pelo Sr. Contribuinte”, reconheceu. A “perspectiva”, segundo o juiz, é que as audiências ocorram nos dias 12, 13 e 14 de março.

O advogado da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Eliésio Marubo, mostrou-se desolado com o adiamento das audiências. Para ele, o impasse “causa insegurança no julgamento e dá a ideia de que os criminosos são coitadinhos injustiçados pelo sistema judiciário”.

“Alguém está errando de propósito aí, porque nem estagiário consegue errar tanto”, pontua o advogado indígena, sem indicar quem seriam os autores dos erros.

Eliesio Marubo defendeu o juiz dizendo que ele “está correto em atender aos pedidos no processo”. Segundo ele, “a acusação e os assistentes estão passando vergonha em não sanear o processo”.

Antes de saber sobre o adiamento, o advogado da Univaja aguardava com expectativa a continuação do processo. Ele destacou que acredita que os acusados serão levados a júri popular e que “a justiça tem agido de forma esperada”, mas que “esperava mais consistência por parte da investigação”.

Eliésio Marubo fez críticas à Polícia Federal pois, segundo ele, a investigação “deixou pontos importantes para trás”. Esses pontos, conforme o advogado da Univaja, já não serão mais considerados nas audiências de instrução – fase crucial do processo, em que são ouvidas as testemunhas e reunidas as provas contra os acusados.

A decisão de adiamento do magistrado, que não está em segredo de justiça, traz os nomes de 13 testemunhas do crime. Também menciona os nomes das viúvas de Bruno e Dom, Beatriz de Almeida Matos e Alessandra Farias Sampaio, respectivamente, que atuam como assistente de acusação do Ministério Público Federal, acompanhadas de seus advogados.

O despacho do juiz Fabiano Verli cita as seguintes testemunhas: Janio Freitas de Souza; Laurimar Lopes Alves; Eliesio Da Silva Vargas; Ramon Santos Morais, Domingos Savio Pinzon Rodrigues, Manuel Vitor Sabino da Costa; Alzenira do Nascimento Gomes; Raimundo Bento da Costa; Francisco Figueira Ferreira; Orlando de Moraes Possuelo; Higson dias Castelo Branco; Alex Peres Thimoteo; e Raimunda Nonata de Oliveira Da Costa.

Janio Freitas de Souza e Laurimar Lopes Alves, ambos em liberdade condicional, estão entre os acusados de associação criminosa para a pesca ilegal do pirarucu e outras práticas delituosas na região do Vale do Javari.

Já Manoel Vitor Sabino da Costa, mais conhecido como “Churrasco”, é tio de “Pelado”, e chegou a ser detido ainda quando Bruno e Dom desapareceram no rio Itacoaí, mas liberado em seguida. Janio e “Churrasco” vivem na comunidade São Rafael, último local onde esteve a dupla assassinada.

A lista não traz entre as testemunhas Ruben Dário da Silva Villar, conhecido como “Colômbia”, tido como mandante dos assassinatos. Tido como “comerciante”, ele foi preso em julho por uso de documentos falsos. Ele também é investigado sob chefiar uma organização criminosa de invasão e roubo dentro da Terra Indígena Vale do Javari. “Colômbia” chegou a ganhar liberdade provisória, mas estava foragido e foi preso novamente por descumprir condições impostas pela Justiça Federal.

Réus foram transferidos 

Jefferson Lima da Silva, o “Pelado da Dinha”; Amarildo da Costa Oliveira, o “Pelado”, e Oseney dos Santos, o “dos Santos” réus pela morte de Dom Phillips e Bruno Pereira (Fotos: José Medeiros/Agência Pública; Reprodução Tv Globo e Avener Prado/Agência Pública)

O indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom foram brutalmente assassinados em 5 de junho de 2023, em uma comunidade ribeirinha da região do rio Itacoaí, do município de Atalaia do Norte, na divisa com a Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas.

Amarildo da Costa Oliveira, o “Pelado”, – assassino confesso das vítimas –, seu irmão, Oseney da Costa Oliveira, o “Dos Santos”, e Jefferson da Silva Lima, o “Pelado da Dinha”, foram acusados pelo Ministério Público Federal (MPF) pelo duplo homicídio qualificado e ocultação de cadáver. O trio está preso de forma preventiva desde junho do ano passado.

Inicialmente detidos em Manaus, eles foram transferidos para o presídio federal de Campo Grande, que é de segurança máxima. Amarildo da Costa Oliveira foi transferido em 11 de novembro de 2022. Jefferson da Silva Lima e Oseney da Costa de Oliveira foram transferidos no dia 16 de dezembro.

Segundo as investigações da Polícia Federal, o homicídio ocorreu devido a uma rixa antiga de pescadores ribeirinhos locais e Bruno Pereira,  em virtude das fiscalizações realizadas por ele na área da TI Vale do Javari enquanto exercia funções na Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) e mesmo depois, como colaborador da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari). Os relatos indicam que Bruno já tinha sido ameaçado em razão da atuação na defesa de comunidades indígenas localizadas naquela região. Dom Philips teria sido assassinado por estar acompanhando Bruno.

Na época, a Univaja contestou a afirmação de que Bruno tinha rixa com um dos acusados, conforme relatório dos policiais e que foi reproduzido pela juíza da Comarca de Atalaia do Norte, Jacinta Silva dos Santos.

“Tecnicamente, Bruno nunca teve qualquer briga ou desentendimento com o acusado. Quando desempenhava sua função pública na Funai, o seu papel era exatamente combater a extração dos ilícitos ambientais no interior da terra indígena e em favor dos povos indígenas do Javari”, disse a organização.

O assassinato de Bruno Pereira e do Dom Philips passou à investigação federal depois de um pedido feito pela comissão temporária do Senado Federal, no dia 7 julho do ano passado. Na ocasião, a juíza da Comarca de Atalaia do Norte, Jacinta Silva dos Santos, enviou o processo para a esfera federal. Entre os dias 30 de junho e 1º de julho, uma comitiva de parlamentares da Câmara e do Senado esteve no município de Atalaia do Norte (distante 1.136 km de Manaus) onde participou de audiências com lideranças indígenas do Vale do Javari.

  • Comunidade São Rafael, Atalaia do Norte, na região do Vale do Javari, Amazonas (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)
  • Colômbia_Vale do Javari
    Rubens Villar Coelho, o "Colômbia" (Foto: Divulgação/Redes sociais)
  • Jânio Freitas de Souza, acusado por associação criminosa (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)
  • Manoel Vitor Sabino da Costa, o "Churrasco", uma das testemunhas no processo (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)
  • Comunidade São Rafael, última parada de Bruno Pereira e Dom Phillips, antes de sofrerem a emboscada que os vitimou. (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

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